Mais uma final do Campeonato Brasileiro. Desta vez dois times de São Paulo se enfrentariam: Palmeiras e Corinthians.

Estádio lotado, dividido ao meio para não misturar os torcedores, policiais, bandeiras, gritos de guerra, mascotes, times perfilhados, hino nacional, início da partida, enfim, a mesma liturgia de sempre.

Início de jogo tenso. Conforme os jogadores vão se aquecendo e perdendo o nervosismo inicial, a partida vai ficando mais solta, menos o coração dos torcedores, que continua insistindo em sair pelas suas bocas - dizem que o futebol é a paixão do brasileiro, mas acho mais adequado dizer que o brasileiro é apaixonado pelo time de futebol, sente-se um dos seus donos e, assim, um sujeito rico e poderoso, capaz de comprar jogadores pagando milhões e de lhes oferecer salários milionários.

Final do primeiro tempo: zero a zero. A torcida respira no intervalo e volta a ficar tensa ao ver os jogadores retornando a campo.

Mas desta fez algo inusitado, algo realmente extraordinário, nunca ocorrido dantes, em nenhum lugar do mundo seria visto naquele estádio de futebol!

Deu-se que os jogadores voltaram a campo com os uniformes trocados. Isso mesmo! Os jogadores do Corinthians voltaram usando o uniforme do Palmeiras e vice-versa!

Isso não foi percebido de pronto pela massa. A princípio ouviu-se um pequeno zum-zum-zum aqui e ali, que foi ganhando corpo e já nos primeiros minutos de jogo se transformara numa vaia estrondosa. Estranhamente, porém, essa reação foi se arrefecendo e aos 15 minutos do segundo tempo o que se ouvia era apenas um burburinho: as pessoas passaram a discutir o assunto entre si, formando grupos espontâneos. A esta altura muitos também já iam deixando o estádio e puxando a fila. Saiam mudos, miúdos, cabisbaixos, e no semblante, ares de tristeza e indignação.

Aos 30 minutos não havia mais uma vivalma no estádio que não fossem os jogadores, o “staff” dos clubes, do próprio estádio e os profissionais da mídia que cobriam o jogo. Até os policiais haviam sumido.

No dia seguinte, segundona, ônibus, trem, metro, trabalho, marmita, enfim, tudo voltara ao normal, mas nem tudo seria mais como antes: havia agora uma nova luz a iluminar um caminho sempre deixado no escuro, a encher o povo de perplexidade, mas também de clareza e esperança.