Desde muito cedo tive contato com pessoas com doenças da mente, primos, tias, tios e outros. Depois de um tempo, já adolescente, comecei a entender que muitas dessas doenças são hereditárias, talvez por isso nossa família possua tantas pessoas com doenças mentais.
Não sou especialista, mas depois de 20 anos lidando com gente aprendemos algumas coisas e é sobre isso que quero falar hoje e te alertar.
Bom, esse assunto é muito delicado e temos que tratar com muito cuidado. Com certeza tem pessoas aqui, médicos e profissionais mais indicados que abordariam melhor o tema, mas eu falarei com base na minha experiência de vida em ajudar ao próximo com doenças da mente.
Causas:
Primeiro é preciso destacar que as causas para depressão, pânico, ansiedade são as mais variadas. Pessoas extremamente calmas, tranquilas e que aparentemente estavam bem, desenvolvem quadros severos de depressão, então nem sempre o stress como alguns dizem, é a causa.
Pode ser orgânico, ou seja, é falta de algo no organismo que leva a pessoa a esse quadro de depressão. Já vi alguns casos de pessoas com problemas de tireoide que parecia depressão e quando tratou dos problemas, os sintomas sumiram. Atendi uma moça, de 40 anos, que estava com depressão. Além da depressão, ela via coisas, tinha visões esquisitas, porém quando consultou o médico na verdade era menopausa precoce.
Pode ser um trauma pós parto, pós traumático. Eu tenho uma tia que até hoje não se recuperou depois de ter um filho assassinado, isso já faz 5 anos.
Nesse ponto, eu sempre tento entender a vida da pessoa, tento ver o histórico, para dar um conselho de onde começar a buscar as causas do problema, e aí ajudo a procurar um profissional. Normalmente, eu peço pra ir a um clínico e começar a investigar as coisas. Quando eu vejo que o quadro é bem grave, peço pra ir direto ao psiquiatra.
Tratamento:
Aqui temos algo muito, muito difícil, cada pessoa é uma pessoa diferente. Minha esposa passou por um quadro de depressão e pânico. Tomou remédio 3 meses, e isso já tem 16 anos, nunca mais tomou nada, não fez terapia, não precisou, foi um estado depressivo.
Mas é um caso, e hoje acompanho casos de pessoas com 3, 4, 5 anos vivendo com depressão. Tem uma pessoa na minha família que vive depressiva há mais de 50 anos e só começou a tratar faz uns 15 anos, então não há uma receita de bolo para tratar a depressão.
Os casos de sucesso que tenho visto tem alguns pontos em comum:
1º- Remédios: hoje alguns remédios nem são mais tarja preta. Já há remédios tão modernos que não causam mais aqueles efeitos que causavam antes. Esse era um medo grande de quem tinha depressão, tratar a depressão e ficar dependente de remédios.
Os remédios devem ser tomados direitinho. Muita gente desiste do remédio, pois no início ela se sente pior, e é isso mesmo, os remédios começam a mudar a pessoa por completo, a química toda do corpo muda, até a espessura do cabelo muda, então tem que persistir nos primeiros momentos. Logo o equilíbrio vem e aí a pessoa começa a melhorar.
Não se pode tirar remédios de uma hora para outra. Esse é um erro crasso, muita gente tira o remédio sozinha e tem recaídas profundas. O desmame do remédio tem que ser controlado e bem controlado. Às vezes, leva muitos meses para o psiquiatra dar alta e indicar a parada dos remédios e o normal é passar por isso. Só quem pode receitar remédio é o psiquiatra; eu já vi outros profissionais indicarem remédios e na minha experiência foi um desastre.
2º- Terapia: aqui tem uma questão de custo. Na minha realidade, muita gente não tem condições de pagar uma terapia adequada; já acompanhei casos de pessoas que tinham que ir duas vezes por semana na terapia, tamanha era a crise. Quando trabalha psicólogo e psiquiatra juntos funciona bem, tenho visto casos de sucesso assim.
3º- Família: o apoio da família é fundamental. É aqui que mora uma dificuldade muito grande! A família quer ver resultados e os resultados demoram, demoram, demoram, algumas pessoas começam a reagir logo, outras demoram meses até conseguir sair sozinhas, até fazer algo legal, até ir numa festa e sorrir um pouco. A família precisa estar ali do lado, mostrar que se importa, que estão juntos. Atendi um pastor que no pior quadro dele, ele me disse "Eu queria morrer, eu queria sumir, eu queria ser importante para uma pessoa só, mas ninguém ouvia meu grito, nem mesmo minha esposa". Esse amigo levava a esposa no trabalho, as filhas na escola e voltava pra casa para chorar.
Quando a família entende o quadro, facilita muito. Há frases do tipo "você tem que reagir", "você tem sair dessa", "você fica aí deitada", "levanta faz alguma coisa", "vai caminhar que essa depressão sai", "arruma um namorado que isso é falta de sexo", "arruma umas mina pra sair que a depressão sai rapidinho". Isso tudo não ajuda em nada, porém é o que eu ouço sempre. Muitas vezes atendo uma pessoa em depressão e eu não falo nada, só ouço, no final a pessoa fala "pastor, muito obrigado, o senhor me ajudou muito". Atendi uma moça que falou por 4 horas na minha casa, outra ficou 3 horas, só falando, falando, falando, e eu ouvindo, deixei falar, dei uma abraço, orei com elas e seguiram em frente agradecidas. É isso que a família tem que entender.
Suicídio, outra situação que aconteceu com um amigo pastor, o quadro dele era severo e a família nunca deixava ele sozinho, porém ele enganou a pessoa que estava de plantão e se matou. A família tem que estar junto, tem que ir ao médico, entender bem o caso, entender qual a gravidade do caso para se prevenir de tragédias como essa e tantas outras.
4º A FÉ: eu tenho assistido pessoas melhorarem muito de quadros graves de depressão se apegando na fé, dedicando-se ao outro, dedicando-se a trabalhar para melhorar o mundo a sua volta e vivendo uma vida de comunhão com Deus.
Porém, infelizmente, também tenho assistido pessoas depressivas pela fé, uma fé usurpadora, uma fé de mercenários que sugam a vida e a alma de fiéis piedosos. Tenho em meu meio muitos pastores depressivos, e os quadros graves têm aumentado bastante. Nos últimos anos entre USA e BRASIL temos mais de uma centena de casos de suicídio de pastores. Muitas igrejas têm adoecido pessoas. Meu trabalho tem sido o de cuidar de algumas pessoas dessas, não abro mão dos meus valores, mas o mesmo Jesus que expulsou os homens do templo também perdoou a adúltera. Fomos chamados para agregar e amar as pessoas, a religião precisa fazer o seu papel de religar e não de afastar.
5º Por fim, temos em todos os casos uma sensação arrasadora de impotência quando temos um doente em nossa família. Não tenho como pedir para você não se sentir assim, mas te digo, com tratamento, terapia e fé é possível sair da depressão. Alguns levam mais tempo que outros. Se você entender isso e tomar atitudes que demonstram o quanto está ao lado da pessoa, emprestando o seu ombro, seu carinho, seus ouvidos, tem tudo pra correr bem e alcançar a vitória.