Querido
leito, te desafio a embarcar nessa reflexão sobre como a ideia do “amor à
primeira vista” é o maior sinal de que estamos sendo controlados pelas nossas
emoções e carências e o quão prejudicial e irracional é esta ideia para nós e
para quem nos relacionamos. Esse relato não tem como objetivo menosprezar ou
diminuir ninguém, mas, sim, o de despertar a consciência, para alertar que é
impossível esperar que a felicidade esteja em outra pessoa ou no futuro que ela
consequentemente poderia nos proporcionar. Deixo aqui um pouco da minha
verdade.
Ilusão
e Realidade:
O mito do sofrimento inevitável
Bom,
eu definitivamente não acredito em amor à primeira vista, mas já acreditei.
Certa
vez, sai com alguns amigos e acabei por conhecer uma pessoa maravilhosa, ela
era a pessoa mais linda do mundo pra mim, e jurei para mim mesmo que roubaria
um beijo dela antes da noite acabar... e eu realmente consegui, trocamos
mensagens de afeto e flertes maliciosos pelos dias que se seguiram daquele
final de semana e em menos de duas semanas eu já estava fazendo juras de amor para
aquela pessoa. Não tinha dúvida alguma, era a pessoa mais linda que já esteve
interessada por mim e que eu tinha conseguido conquistar.
Não
demorou muito para notar um afastamento logo de cara, do que adiantava uma
paixão fervorosa sem uma base consistente de informações sobre aquele outro ser
humano que eu já julgava estar perdidamente apaixonado? Mensagens que demoravam
a ser respondidas e encontros que nunca conseguíamos marcar. Essa pessoa parecia
estar me evitando e ela não estava errada.
Na
verdade, com o tempo e com a maturidade percebi que não amava aquela pessoa,
estava apenas apaixonado pela versão daquela pessoa que eu mesmo criei na minha
cabeça, uma versão fictícia.
Por
algum motivo eu fiquei deslumbrado pela aparência daquela pessoa e
imaginei toda uma vida com ela. Mas como eu não a conhecia o suficiente, a
minha cabeça inventou uma versão perfeita dela, tinha o mesmo corpo e o mesmo
rosto, mas era uma obra adaptada da minha imaginação.
Enquanto
eu estava completamente “apaixonado”, esta outra pessoa ficava constantemente
me perguntando:
-Por
que você está tão apaixonado por mim a tão pouco tempo?
Eu
exalava carência e soltava frases como: “eu sabia exatamente que você seria
meu”, “não consigo explicar só sei que sinto”, “algo me diz que ficaremos
juntos para sempre”, “te amo por todos os confins da eternidade”, “você também
me ama né?”, “Por que você não demonstra que me ama?”. Era óbvio que ele queria
ficar o mais longe possível de mim, porém ele era tão carente quanto eu. Ele
acabou se tornando a única esperança da minha felicidade. Eu ficava esperando
as mensagens dele como se eu fosse um cachorro esperando o dono colocar
pedigree na tigela. Estava obcecado, como se aquela pessoa fosse tapar os
buracos em minha alma. E qualquer indicio de que ele fosse me abandonar me
deixava louco. Acabei me tornando um verdadeiro parasita. E toda essa
dependência emocional acabou me deixando vulnerável para que essa outra pessoa
me tratasse como bem ela quisesse.
A
partir desses três anos, a cada 6 meses ou mais, criávamos versões imaginarias
um do outro para sustentar essa mentira que ambos desejávamos como esperança de
felicidade e preenchimento do nosso ego. Mas quando nos encontrávamos com a real
versão um do outro, com nossos verdadeiros desejos e valores, era impossível
manter todo esse teatro.
E
eu ainda não sabia, mas fazia parte das pessoas que tem um tipo ansioso
de apego. Esse grupo de pessoas pensam que os outros estão relutantes em chegar
perto de nós tanto quanto nós gostaríamos. Muitas vezes nos preocupamos com o
fato dos nossos parceiros não nos amar de verdade ou de não querer mais ficar
conosco. Eu queria sempre ficar muito perto das pessoas que eu gostava e isso
as vezes as assustava.
A
partir do instante que notei esse apego nas minhas relações afetivas, resolvi,
após muitas recaídas, assumir uma nova postura em minha vida.
Foi
extremamente difícil, me sentia muito infeliz porquê não tinha entendido que
não precisava de ninguém me dizendo 24h por dia que me amava pra ser feliz.
Então desde muito jovem coloquei na minha cabeça que eu só seria feliz quando
achasse minha “outra metade” (Que é um baita conto de fadas).
Simplesmente
é impossível amar alguém antes de conhecer a fundo a cultura e os valores dessa
outra pessoa. Isso leva muito tempo e trabalho. Coisa que nossa geração não
está nem um pouco acostumada. Se estamos tristes publicamos uma foto e
recebemos mais de mil likes e logo estaremos felizes novamente, porém isso não
é amor próprio, muito menos felicidade, pois está completamente ligado ao nosso
ego do mundo físico. Felicidade plena e verdadeira depende de autocuidado e
autocontrole.
Mas Matheus, como uma pessoa culturalmente construída em
uma cultura de narcisistas emocionais e radicalmente dependentes de escapes
como drogas, álcool, pornografia, crenças que nos proporcionam puro êxtase, consegue
ser feliz sem usar alguém como uma dessas muletas emocionais?
Simples
caro leito, através do amor próprio...
O
amor próprio é constantemente confundido com autoestima, e apesar de serem
complementares, não são a mesma coisa. Amor próprio está ligado ao GOSTAR DE
VIVER A SUA VIDA, gostar de estar vivo. Não necessariamente gostar de todas as
coisas que acontecem na sua vida, até porque às vezes a vida é uma droga e a
melhor coisa que podemos fazer é aceitar isso. Porem, ainda assim ter gratidão
por estar vivo sendo você.
Sem
amor próprio você não consegue acessar esse estado de felicidade e plenitude.
Quando você se ama, tomas as melhores escolhas para a sua vida. Você não deixa
pessoas te prejudicarem, você não entra em relacionamentos tóxicos e tem mais
critério de quem ou o que fará parte da sua vida.
Mas como saber quais são os melhores critérios para ter
uma vida com maior plenitude e felicidade?
Ser
consciente de como as pessoas e as situações que vivemos realmente são é um bom
caminho para começar a despertar de um mundo de perfeito e fantasioso. Ser
consciente da realidade nos livra das ilusões e expectativas do mundo material,
ilusões e expectativas que muitas vezes estamos sempre perseguindo e sempre nos
machucando porque é nossa idealização sublime da realidade.
Meditar,
escrever, pensar no que sentimos e nas atitudes que tomamos no nosso dia a dia
nos proporciona a libertação do ego.
O
ego basicamente é o que define nossas individualidades, nossas vaidades, nossas
ambições e nossos desejos e expectativa sobre as pessoas e a realidade. Se
libertar do ego é pensar no outro como o seu semelhante, independente de
qualquer coisa, ele também quer e merece ter uma vida de paz e felicidade como
você, todos somos filhos e filhas do mesmo planeta. A libertação do ego nos
proporciona um foco maior em nossa essência humana, podendo nos trazer de
maneira mais sóbria um estado de paz e felicidade plena de forma coletiva e
individual, tornando assim, todo esse sofrimento, expectativa e dependência
encima de si e do outro, algo opcional.