Tolstoi e a Traição
O grande escritor russo Leon Tolstoi teria dito que “para ser universal, basta cantar a sua aldeia”. Li a frase num livro do iluminado escritor piracicabano Cecílio Elias Neto, faço gosto de acrescentar.
Tomando a frase como conveniente premissa, posso ver o mundo daqui, do conforto do meu velho sofá e embalado pela brisa que atravessa a minha janela neste sítio isolado do planeta.
Então eu me lembro de ter visto aqui na minha aldeia várias pessoas que se achavam a última bolacha do pacote ascenderem com muita força e muito rapidamente no seio social, dado sobretudo a sua capacidade de impressionar os outros a partir da sua elevada autoestima. Mas vi também essas pessoas caírem rapidamente quando foram postas à prova e descobertas como sendo pessoas comuns, tal qual as demais (pois somos todos pessoas comuns!).
E também vi, com estes olhos que a terra há de comer, os que foram reconhecidos como traidores: os que se dispuseram a liderar - e a fazer jus aos respectivos louros - mas que, diante de uma situação mais séria, deram de ombros.
A estes sempre esteve reservada a severa pena do banimento. E quero crer - já abusando da licença que me deu Tolstoi - que o banimento do traidor encontra explicação em algo mais profundo do que decorreria de uma avaliação de sua conduta do ponto de vista legal, moral ou ético. É que há algo em nós, e de resto em todo ser vivo, que nos amina a seguir existindo, a perpetuar a espécie, algo sobre o qual não temos controle e que de certa forma nos comanda (há quem chame isso de Deus).
Pois bem, o traidor - suponho - ao fazer-se dissimuladamente confiável ameaça a nossa sina, o nosso impulso vital que mira a perpetuidade da nossa espécie. Seria, portanto, por isso que o traidor, quando percebido, recebe a duríssima pena de banimento, que é a pena reservada aos que põem em risco o nosso destino maior e coletivo de continuar a existir.
E assim é que vejo daqui desta minha velha poltrona, e às vezes olhando pela janela o bucólico cenário já tão colado em minha retina, mais um traidor sendo apanhado. E é deste ponto que também já antevejo, alegre, que outros, similares a ele, logo terão o mesmo destino.